30. São plácidas todas as horas que nós perdemos

Mestre, são plácidas
Todas as horas
Que nós perdemos,
Se no perdê-las,
Qual numa jarra,
Nós pomos flores.

Não há tristezas
Nem alegrias
Na nossa vida.
Assim saibamos,
Sábios incautos,
Não a viver,

Mas decorrê-la,
Tranquilos, plácidos,
Lendo as crianças
Por nossas mestras,
E os olhos cheios
De Natureza…

À beira-rio,
À beira-estrada,
Conforme calha,
Sempre no mesmo
Leve descanso
De estar vivendo.

O tempo passa,
Não nos diz nada.
Envelhecemos.
Saibamos, quase
Maliciosos,
Sentir-nos ir.

Não vale a pena
Fazer um gesto.
Não se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre.

Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.

Girassóis sempre
Fitando o sol,
Da vida iremos
Tranqüilos, tendo
Nem o remorso
De ter vivido.

de Ricardo Reis, “Odes”

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

29. Opinião sobre a pornografia

Não há devassidão maior que o pensamento.
Essa diabrura prolifera como erva daninha
num canteiro demarcado para margaridas.

Para aqueles que pensam, nada é sagrado.
O topete de chamar as coisas pelos nomes,
a dissolução da análise, a impudicícia da síntese,
a perseguição selvagem e debochada dos fatos nus,
o tatear indecente de temas delicados,
a desova das ideias – é disso que eles gostam.

À luz do dia ou na escuridão da noite
se juntam aos pares, triângulos e círculos.
Pouco importa ali o sexo e a idade dos parceiros.
Seus olhos brilham, as faces queimam.
Um amigo desvirtua o outro.
Filhas depravadas degeneram o pai.
O irmão leva a irmã mais nova para o mau caminho.

Preferem o sabor de outros frutos
da árvore proibida do conhecimento
do que os traseiros rosados das revistas ilustradas,
toda essa pornografia na verdade simplória.
Os livros que os divertem não têm figuras.
A única variedade são certas frases
marcadas com a unha ou com o lápis.

É chocante em que posições,
com que escandalosa simplicidade
um intelecto emprenha o outro!
Tais posições nem o Kamasutra conhece.

Durante esses encontros só o chá ferve.
As pessoas sentam nas cadeiras, movem os lábios.
Cada qual coloca sua própria perna uma sobre a outra.
Dessa maneira um pé toca o chão,
o outro balança livremente no ar.
Só de vez em quando alguém se levanta,
se aproxima da janela
e pela fresta da cortina
espia a rua.

de Wislawa Szymborska

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

28. A máquina do mundo

 

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
“O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste… vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”

As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade:

e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.

Carlos Drummond de Andrade

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

27. Seleção Ana Martins Marques

Em branco

Dizem que Cézanne
quando certa vez pintou um quadro
deixando inacabada parte de uma maçã
pintou apenas a parte da maçã
que compreendia.

É por isso
meu amor
que eu dedico a você
este poema
em branco.

* *

Lição de casa

Se os professores soubessem
Dos riscos
Não mandavam escolares
Escreverem poesia.

Ao contrario
Nos livros de poesia
Deveria estar escrito:
Não tente fazer em casa.

* *

quarto

neste mesmo quarto
há muito tempo
você me ensinou
novamente a nudez
e então chamamos isso de amor
mas era exagero

* *

Diário (trechos)

dia 13, manhã

todo mundo fica irritado quando digo
que novamente não vou à praia
F. em especial
empresto a máquina para as crianças e peço
fotografias do mar.

dia 17, noite

cigarros e cigarras
por um momento
recordo como era simples e alegre te amar
ainda é tarde
nas fotografias.

dia 19

passei quase todo o dia olhando as mãos
coloquei-as no sol
para que se queimassem de uma luz limpa
tudo o que toquei não foi feliz
vontade de me ferir, de carregar coisas pesadas.

dia 20, manhã

na praia você encontra uma estrela das redondas
vou mostrar às crianças
para provar que o mundo é estranho
sentamos lado a lado e de repente
estamos rindo entregues de novo
ao hábito feliz das palavras.

dia 21

ninguém ainda reparou que eu não te amo mais
caminhamos a tarde toda
o grande mar desfocado por trás.

* *

Mesa

Mais importante que ter uma memória é ter uma mesa
mais importante que já ter amado um dia é ter uma mesa sólida
uma mesa que é como uma cama diurna
com seu coração de árvore, de floresta
é importante em matéria de amor não meter os pés pelas mãos
mas mais importante é ter uma mesa
porque uma mesa é uma espécie de chão que apoia
os que ainda não caíram de vez.

* *

Batata quente

Se eu te entregasse agora o meu amor
aceso como ele está,
como ele está, pesado,
você o trocaria rapidamente de mão,
você o guardaria um pouco na esquerda,
um pouco na direita,
por quanto tempo antes de o passar adiante?

* *

Horóscopo

Há duas ou três promessas
espreitando o dia.
Indício de visitas
e incêndios.
Saúde, mas nenhuma alegria.
Distrações e alegrias no trabalho.
No amor talvez não seja bem isso.
Indiferença não é uma saída nessa hora.
Família e dívidas preocupam.
Os astros continuam rodando à toa.
Impossível domar
a fera que te habita
o signo inexato.

* *

Buenos Aires

Das longas avenidas que inventamos
sem nunca percorrer
senão com a boca suja de palavras
alguma ficará
para cenário
quando
numa noite
― mas não nesta ―
um de nós deixar o outro
para sempre.

* *

Álbum

Nunca estivemos juntos em uma fotografia.
Era sempre eu, os olhos baixos,
o sorriso desajeitado,
ou tu, o olhar distante, quase antigo,
sempre mais bonito do que és.
Assim não temos com que nos acusar.
De alguma forma, porém,
meu embaraço te revela, como me revela
tua beleza inexata.
Por via das dúvidas
achei melhor queimar.

* *

Conversações

Falamos longamente nestas tardes
como num alpendre de palavras
o sol por trás
falamos longamente e sem cuidados
vamos descascando uma a uma nossas frases
e jogando os restos numa bacia cheia d’água
às vezes demoramos no silêncio
enquanto desmanchamos nas mãos
o sexo de uma flor
inventamos opiniões
discordamos por esporte
somos enigmáticos
como biscoitos da sorte
enfiando os pés descalços na terra
enquanto inventamos um passado um para o outro
falamos longamente e sem cuidados
mentimos como namorados
recitamos versos nossos
como se fossem de outros
somos ainda mais cínicos do que somos
debochamos do que mais amamos
falamos e falamos e falamos
enquanto comemos, fumamos e enchemos
de álcool
a distância entre nós.

* *

Parte alguma

Não te enganes: viajar é aborrecido.
Num ponto, ao menos, todos os lugares
se parecem: neles já se passou
algo terrível.
As viagens cansam
e são tristes.
Viajando apenas constatamos
a repetição tediosa do que existe.
Pois para onde quer que compremos passagem
levamos a nós mesmos na bagagem.
Viajar é conduzir o corpo
- esse comboio imundo -
a um estéril atrito com o mundo
e depois passar o dia inteiro
usando a língua como quem usa dinheiro.
Nem a página em branco dos desertos
nem as savanas e sua promessa de aventura
substituem uma hora de leitura.
Mesmo as longas praias e as montanhas
mesmo os sítios inflacionados de história
mesmo as pirâmides os oráculos a arte
e o lugar preciso para se ver
do melhor ângulo
o sol se pôr como se põe em toda parte
serão depois riscados da memória.
Mais vale afinal ficar em casa
se é que se tem uma
e enviar-te este postal
de parte alguma.

* *

O brinco

Pode ser que como as estrelas
as coisas estejam separadas
por pequenos intervalos de tempo
pode ser que as nossas mãos
de um dia para o outro
deixem de caber
umas dentro das outras
pode ser que no caminho para o cinema
eu perca uma das minhas ideias
preferidas
e pode ser
que já na volta
eu me tenha resignado
alegremente
a essa perda
pode ser
que o meu reflexo sujo
no vidro da lanchonete
seja uma imagem de mim
mais exata
do que esta fotografia
mais exata do que a lembrança
que tem de mim
uma antiga colega de colégio
mais exata do que a ideia
que eu mesma
agora tenho de mim
e portanto pode ser
que a moça cansada
de olhos tristes
que trabalha na lanchonete
tenha de mim uma imagem
mais fiel
do que qualquer outra pessoa
pode ser que um gesto
um jeito de dobrar
os lábios
te devolva
subitamente
toda a infância
do mesmo modo que uma xícara
pode valer uma viagem
e uma cadeira
pode equivaler a uma cidade
mas um cachorro estirado ao sol não é o sol
e uma quarta-feira não pode ser o mesmo que
uma vida inteira
pode ser
meu querido
que esquecendo em sua cama
meu brinco esquerdo
eu te obrigue mais tarde
a pensar em mim
ao menos por um momento
ao recolher o pequeno círculo
de prata
cujo peso
o frio
você agora sente nas mãos
como se fosse
(mas ó tão inexato)
o meu amor.

* *

A vida submarina

Eu precisava te dizer.
Tenho quase trinta anos
e uma vida marítima, que não vês,
que não se pode contar.
Começa assim: foi engendrada na espuma,
como uma Vênus ainda sem beleza,
sobre a pele nasciam os corais,
pele de baleia, calcária e dura.
Ou assim: a luz marítima trabalha lentamente,
os peixes começam a consumir por dentro
o sal do desejo,
estão habituados ao sal.
Quando vês, a água inundou os pulmões,
neles crescem algas íntimas,
os olhos voltam-se para dentro,
para o sono infinito do mar.
As mãos se movem num ritmo submerso,
os pensamentos guiam-se pela noite
do Oceano, uma noite maior que a noite.
Tenho quase trinta anos e uma vida antiga,
anterior a mim.
Daí meu silêncio, daí meu alheamento,
daí minha recusa da promessa desse dia
que você me oferece,
esse dia que é como uma cama
que se oferece ao peixe
(você não haveria de querer
um peixe em sua cama).
Quem atribuiria ao mar
a culpa pela solidão dos corais
pelas vidas imperfeitas
dos peixes habituados ao abismo,
monstros quietos
só de sal silêncio e sono?
eu precisava te dizer,
enquanto as palavras ainda resistem,
antes de se tornarem moluscos
nas espinhas da noite,
antes de se perderem de vez
no esplendor da vida
submarina.

* *

Penélope (VI)

E então se sentam
lado a lado
para que ela lhe narre
a odisseia da espera.

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

26. Três do Heyk

Agora

………………hoje não tem beleza nenhuma na casa
………………nem potência nos retalhos da carne

………………você perto
………………do outro lado da linha
………………mas vou de silêncio
………………[como gostaria de querer garantir nenhum pio]
………………engolindo
………………no cansaço do meu último pacote de cigarros
………………papel e fumo
………………me deixando seco e fosco por dentro

………………como, agora que nossos piercings se encaixariam
………………meu peito esticado de burrice
………………no seu peito rosa sem desejo
………………
………………agora que minha casa é casa
………………cabe você mil vezes
………………e tem lugar pras suas crenças nas revistas de decoração
………………
………………agora que eu estou sem um centavo, com cem quilos de coragem
………………e meus lençóis emprestados
………………pra me agradar fazem laços
………………no hexágono exato do quarto -
………………minhas coisas também têm complexo de viralata

………………como, agora que deixei a barba
………………tento arredondar uns quilos
………………juro bicicletas e exercícios

………………agora que o desespero já não é estilo
………………que me fartam tantos quantos de faltam os motivos

………………como, agora que já vão duas estações inteiras
………………de você esgotada na praça

………………como foi resolver me atender,
………………se desculpar frouxa na cara lavada
………………e tocar fresca o domingo?

* * *

barateando o preço da vida

I

desejo
um grama de paz
presse peito aberto

os olhos de mel do gato
que pega moscas
no parapeito do edifìcio
sem cair

e a vegetação desimportante das paredes do meu bairro

a musculatura sentimental
dos que empunham serrotes
por anos
onde a inimizade que se faz com as tàbuas
não é o ùltimo passo da prancha

por mais que só os dentes dos tubarões
saibam a hora de partir
não é deles que aprenderemos
o sossego

porque não somos cinco bilhões de toneladas de ar
que preenchem o silêncio
que nem são vazias
nem podem fugir de si
e no movimento eterno das correntes
se forjam
por esbarros
no atrito
e trabalham
para os barcos
aos moinhos
rodando dentro de si

mas ninguém disse que rodar é ser livre

II

por medo
o gato
já não come

estático
acompanhando por seus raios
as moscas
não concebe o próprio voo

e os ladrilhos
lado a lado
ignoram a verve veloz
e aerodinâmica
de que são dotados
do não milímetro ao lixo
se empilham
a finco nos ossos da cidade
barateando o preço da vida

pois os especuladores
içam velas
do que já não serve

e expulsam dos próprios pulmões
o vento morno que navega os primeiros nós

como o anoitecer expulsa o sol
nas treliças da porta

e
esse vai
como ficam as pedras da prisão
por desconhecer
surdas
os gritos daquilo que edificam

mas imóveis também estão os cabos de energia, as
terminações nervosas da cidade
seu zumbido mudo
o papel de deus de cada poste

em cima de nós
folheando cadernos e livros

todos fixos

amando a dor
como quem
ama os filhos

* * *

Fim de verão, versão 2

As encostas têm apontado as lanças
……………..para as constelações de pássaros
……………..As revoadas lançam charadas em ponto cruz e
……………..os engasgos trazem nuvens quentes pelos bicos
.
……………..As cores nublam suas malhas,
……………..a hora por pudor se castra e
……………..os dias já não são tão longos.
.
……………..O cristo vem pra ser
……………..um quadro cinza de
……………………mata
……………………pedra e
……………………turistas cinza.
.
……………..Os patos
……………..seu voo de pneu
……………..apagam o rastro que as asas abandona.
……………..E já não temos caçadores nem cães, e
……………..como eles, temos farejado bifes envenenados
.
.
.
……………..Com as dicas e a fúria dirigida,
……………..o verão prega roldanas e se puxa pelas pontas.
.
.
.
……………..Do ventilador virá a poeira e
……………..os dias não o alistarão.
……………..se tornará o fator vivo
……………..da invenção que há nas bandeiras
……………..elas se esticarão em chicotadas,
……………..como a bandeira falsa
……………………..da lua falsa
……………………..de um pouso antigo no Arizona.
.
……………..os feixes macerados
……………..nos vácuos do vapor
……………..alimentam para os crentes
……………..a luz divina em nichos isolados
.
……………..As lojas se acanham,
……………..o funk empalidece e
……………..as avenidas vão fermentar cerveja.
……………..Seus filhos testam a carga dos balcões
……………..vão os aposentando por invalidez
……………..O varal também testa sua energia e
……………..amontoa roupas esquecidas
……………..no que foram os parapeitos de um sonho.
.
……………..Com as dicas e a fúria dirigida,
……………..o verão não se culpa,
……………..prega roldanas e contrata elenco
……………..para que o puxem pelas pontas.

de Heyk Pimenta

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

25. Dois do João

1.

Quando te vi, ali, deitada na cama
meio em sonho, meio em coma
seu sorriso ficou mórbido
(e você fria… branca… frígida)
dali a pouco estava morta
e eu não me mostrei arrependido
pela facada, pelo tiro
por te empurrar abaixo-escada
(pelo veneno que escorria)
e você, já morta, morria…

Alguém poderá dizer que eu ria,
mas a culpa foi da bebida:
e martírio por martírio
diz-se do assassino: artista!
e do artista: assassino!

* * *

O segredo das horas

Ah, meu bem! O cinza do dia
Em claro e bom tom, anuncia
O segredo das horas, dos olhos.
O cinza quieto e indiscreto
Transa nas palavras
O verbo que traçamos naquele dia.
Meu bem! Meu bem!
De repente, temos um teto
E um segredo espalhado ao vento
(e que vento!)
Deixa um sorriso (e o cinza inquieto!)
Talvez, como diriam, uma retomada:
Sou cinza e pintei o dia de cinza
Pra valorizar o amor no verso
Pra desabrochar em qualquer palavra.

de João Gabriel Furbino

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

24. Paisagem com ideias fixas

Que deve existir uma palavra ainda não dita, esquecida

Junto ao vocabulário de um povo perdido, extinto há muito,

Uma palavra de água tocando as telhas, virgem de sentido,

Intocada por séculos de fechada exaltação –

Palavra surda gritando sobre telhados, atravessada de silêncio,

Que penetrou a cegueira e atingiu qualquer lado:

Palavra interior, que colhia os seixos acesos da manhã.

Que essa palavra foi uma ponte ligando a invisibilidade à aurora,

Que respirava a origem e terminava no esquecimento,

Que o povo que a criou colhia rosas em silêncio,

Que este silêncio durava anos, até ser quebrado por esta palavra

Abraçando os quadris da memória.

Deve haver esta palavra que quando dita ao redor da fogueira

Aquecia mais que o fogo, ardendo mais que a lua transpirava a madeira.

Palavra cor que se debruça sobre a promessa de uma paisagem nova

Repleta de árvores em movimento – Palavra posta

À porta das casas, para proteção, dentro quem brinca com serpentes

Vez ou outra a recitava: tocava-a para a dança de tudo o que vive,

Que depois de dita a palavra era guardada em uma urna secreta,

Que as chaves ficavam com os ladrões, e quem dedilhasse os tons escuros

Do violino ganharia a palavra que deve ter existido.

Palavra os teus cabelos de ouro, sussurrada próxima de quem morria

Da palavra nos pulmões colados na luz.

Que deve existir esta palavra oculta na corola que desponta da distância

Cheia de medo, pois anuncia o meio de um coração ardendo – Palavra

De amor e de morte, dita ao centro do qual tudo parte para queimar sozinho.

Sinônimo de tudo o que é monumental, a palavra inteira,

Anagrama de Deus – Engolida no intenso mistério dos dicionários

A palavra perdida dos próprios usos: aberta, escutada, repleta de ouro,

Sonora como o sangue escoando das fendas do barro.

Que deve existir esta palavra provada no fogo, salgada no deserto,

Presa ao calcanhar dos santos peregrinos, recuando o amor até as fontes da sede.

A palavra que remanesceu, rescendendo à jasmin, cantando nos cântaros vazios

Jogados na casa – Onde quem brinca com serpentes a costurou na boca da cobra,

Que partiu envenenada para exigir todo corpo.

de Tadeu Sarmento

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

23. Yerushalayim

em Jerusalém sonhei com Neve Tsedek
(o SoHo de Tel Aviv)
você comprava uma tela abstrata
de uma pintora hippie
de dentes ruins

tela depois trocada por
não me lembro
quantas doses de arak
em uma barraca do shuke

chuva torrencial
e no fotograma seguinte
pedalando ensolarados
pelo calçadão de Yafo
o Mediterrâneo nos fitava
sonolento
como se olhasse para o passado
e ainda nem existíssemos

de André de Leones

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

22. Balada Homicida

É preciso matar o vizinho com um tiro de fuzil,
antes que ele compreenda os textos sagrados
e venha, como irmão, a seu lar,
comer do seu pão e beber do seu vinho.

É preciso degolar os amigos,
ou enforcá-los em seus cadarços
(eles não usam gravatas),
antes que eles entendam Marx,
decretem o fim da era dos desiguais
e venham exigir que você participe do combate,
deixando para trás sua coleção de tampinhas
de refrigerantes
e de caixinhas de Malrboro.

É preciso matar os homens
– contrariando Drummond –
antes que eles entendam a poesia que há nas coisas
e comecem a distribuí-la em seus gestos diários.
Assassiná-los antes que liguem para a sua casa
e convidem-no para ver a lua
ou um mosquito de Proust,
retirando você de seu conforto militar, remediado.

É preciso se matar, sobretudo se matar,
antes que a vida se refaça no interior dos lares
e a alegria volte a corar a face dos homens:
antes que eles se compreendam, venham à sua porta
e a derrubem, por acreditarem-na obsoleta.

de L.Rafael Nolli

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

21. Poética

LIRISSMO

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

de Manuel Bandeira

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

20. A Flor e a Náusea

untitled

Preso à minha classe e a algumas roupas,
Vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

de Carlos Drummond de Andrade

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

19. Poema em linha reta

grotesco

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma covardia!
Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

de Álvaro de Campos

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

18. Mapa

img17_sm

Me colaram no tempo, me puseram
Uma alma viva e um corpo desconjuntado. Estou
Limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo,
A leste pelo Apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação.
Me vejo numa nebulosa, rodando, sou um fluído,
Depois chego à consciência da terra, ando como os outros,
Me pregam numa cruz, numa única vida.
Colégio. Indignado, me chamam pelo número, detesto a hierarquia.
Me puseram o rótulo de homem, vou rindo, vou andando, aos solavancos.
Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado,
Gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos do ar,
Alguém da terra me faz sinais, não sei mais o que é o bem
Nem o mal.
Minha cabeça voou acima da baía, estou suspenso, angustiado, no éter,
Tonto de vidas, de cheiros, de movimentos, de pensamentos,
Não acredito em nenhuma técnica.
Estou com os meus antepassados, me balanço em arenas espanholas,
É por isso que sai às vezes pra rua combatendo personagens imaginários,
Depois estou com os meus tios doidos, às gargalhadas,
Na fazenda do interior, olhando os girassóis do jardim.
Estou no outro lado do mundo, daqui a cem anos, levantando populações…
Me desespero porque não posso estar presente a todos os atos da vida.
Onde esconder minha cara? O mundo samba na minha cabeça.
Triângulos, estrelas, noites, mulheres andando,
Presságios brotando no ar, diversos pesos e movimentos me chamam a atenção,
O mundo vai mudar a cara,
A morte revelará o sentido verdadeiro das coisas.

Andarei no ar.
Estarei em todos os nascimentos e em todas as agonias,
Me aninharei nos recantos do corpo da noiva,
Na cabeça dos artistas doentes, dos revolucionários.
Tudo transparecerá:
Vulcões de ódio, explosões de amor, outras caras aparecerão na terra,
O vento que vem da eternidade suspenderá os passos
Dançarei na luz dos relâmpagos, beijarei sete mulheres,
Vibrarei nos canjerês do mar, abraçarei as almas no ar,
Me insinuarei nos quatro cantos do mundo.

Almas desesperadas eu vos amo. Almas insatisfeitas, ardentes.
Detesto os que se tapeiam,
Os que brincam de cabra-cega com a vida, os homens “práticos”…
Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas,
Aos soldados que perderam a batalha, às mães bem mães,
As fêmeas bem fêmeas, os doidos bem doidos.
Vivam os transfigurados, ou porque eram perfeitos ou porque jejuavam muito…
Viva eu que inauguro no mundo o estado de bagunça transcendente.
Sou a presa do homem que fui há vinte anos passados,
Dos amores raros que tive,
Vida de planos ardentes, desertos vibrando sob os dedos do amor,
Tudo é ritmo do cérebro do poeta. Não me inscrevo em nenhuma teoria,
Estou no ar,
Na alma dos criminosos, dos amantes desesperados,
No meu quarto modesto da praia de Botafogo,
No pensamento dos homens que movem o mundo,
Nem triste, nem alegre, chama com dois olhos andando,
Sempre em transformação.

de Murilo Mendes

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

17. Todo o sentimento

todo sentimento

Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo da gente.
Preciso conduzir
Um tempo de te amar,
Te amando devagar e urgentemente.

Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez;
Que recolhe todo sentimento
E bota no corpo uma outra vez.

Prometo te querer
Até o amor cair
Doente, doente…
Prefiro, então, partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente.

Depois de te perder,
Te encontro, com certeza,
Talvez num tempo da delicadeza…
Onde não diremos nada,
Nada aconteceu;
Apenas seguirei
Como encantado ao lado teu.

de Chico Buarque de Hollanda

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized

16. Essa negra Fulô

nega-maluca-final

Ora, se deu que chegou
(isso já faz muito tempo)
no bangüê dum meu avô
uma negra bonitinha,
chamada negra Fulô.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
— Vai forrar a minha cama
pentear os meus cabelos,
vem ajudar a tirar
a minha roupa, Fulô!

Essa negra Fulô!

Essa negrinha Fulô!
ficou logo pra mucama
pra vigiar a Sinhá,
pra engomar pro Sinhô!

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
vem me ajudar, ó Fulô,
vem abanar o meu corpo
que eu estou suada, Fulô!
vem coçar minha coceira,
vem me catar cafuné,
vem balançar minha rede,
vem me contar uma história,
que eu estou com sono, Fulô!

Essa negra Fulô!

“Era um dia uma princesa
que vivia num castelo
que possuía um vestido
com os peixinhos do mar.
Entrou na perna dum pato
saiu na perna dum pinto
o Rei-Sinhô me mandou
que vos contasse mais cinco”.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
Vai botar para dormir
esses meninos, Fulô!
“minha mãe me penteou
minha madrasta me enterrou
pelos figos da figueira
que o Sabiá beliscou”.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá
Chamando a negra Fulô!)
Cadê meu frasco de cheiro
Que teu Sinhô me mandou?
— Ah! Foi você que roubou!
Ah! Foi você que roubou!

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

O Sinhô foi ver a negra
levar couro do feitor.
A negra tirou a roupa,
O Sinhô disse: Fulô!
(A vista se escureceu
que nem a negra Fulô).

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê meu lenço de rendas,
Cadê meu cinto, meu broche,
Cadê o meu terço de ouro
que teu Sinhô me mandou?
Ah! foi você que roubou!
Ah! foi você que roubou!

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

O Sinhô foi açoitar
sozinho a negra Fulô.
A negra tirou a saia
e tirou o cabeção,
de dentro dêle pulou
nuinha a negra Fulô.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê, cadê teu Sinhô
que Nosso Senhor me mandou?
Ah! Foi você que roubou,
foi você, negra fulô?

Essa negra Fulô!

de Jorge de Lima

Deixe um comentário

Arquivado em Uncategorized