Agora
………………hoje não tem beleza nenhuma na casa
………………nem potência nos retalhos da carne
………………você perto
………………do outro lado da linha
………………mas vou de silêncio
………………[como gostaria de querer garantir nenhum pio]
………………engolindo
………………no cansaço do meu último pacote de cigarros
………………papel e fumo
………………me deixando seco e fosco por dentro
………………como, agora que nossos piercings se encaixariam
………………meu peito esticado de burrice
………………no seu peito rosa sem desejo
………………
………………agora que minha casa é casa
………………cabe você mil vezes
………………e tem lugar pras suas crenças nas revistas de decoração
………………
………………agora que eu estou sem um centavo, com cem quilos de coragem
………………e meus lençóis emprestados
………………pra me agradar fazem laços
………………no hexágono exato do quarto -
………………minhas coisas também têm complexo de viralata
………………como, agora que deixei a barba
………………tento arredondar uns quilos
………………juro bicicletas e exercícios
………………agora que o desespero já não é estilo
………………que me fartam tantos quantos de faltam os motivos
………………como, agora que já vão duas estações inteiras
………………de você esgotada na praça
………………como foi resolver me atender,
………………se desculpar frouxa na cara lavada
………………e tocar fresca o domingo?
* * *
barateando o preço da vida
I
desejo
um grama de paz
presse peito aberto
os olhos de mel do gato
que pega moscas
no parapeito do edifìcio
sem cair
e a vegetação desimportante das paredes do meu bairro
a musculatura sentimental
dos que empunham serrotes
por anos
onde a inimizade que se faz com as tàbuas
não é o ùltimo passo da prancha
por mais que só os dentes dos tubarões
saibam a hora de partir
não é deles que aprenderemos
o sossego
porque não somos cinco bilhões de toneladas de ar
que preenchem o silêncio
que nem são vazias
nem podem fugir de si
e no movimento eterno das correntes
se forjam
por esbarros
no atrito
e trabalham
para os barcos
aos moinhos
rodando dentro de si
mas ninguém disse que rodar é ser livre
II
por medo
o gato
já não come
estático
acompanhando por seus raios
as moscas
não concebe o próprio voo
e os ladrilhos
lado a lado
ignoram a verve veloz
e aerodinâmica
de que são dotados
do não milímetro ao lixo
se empilham
a finco nos ossos da cidade
barateando o preço da vida
pois os especuladores
içam velas
do que já não serve
e expulsam dos próprios pulmões
o vento morno que navega os primeiros nós
como o anoitecer expulsa o sol
nas treliças da porta
e
esse vai
como ficam as pedras da prisão
por desconhecer
surdas
os gritos daquilo que edificam
mas imóveis também estão os cabos de energia, as
terminações nervosas da cidade
seu zumbido mudo
o papel de deus de cada poste
em cima de nós
folheando cadernos e livros
todos fixos
amando a dor
como quem
ama os filhos
* * *
Fim de verão, versão 2
As encostas têm apontado as lanças
……………..para as constelações de pássaros
……………..As revoadas lançam charadas em ponto cruz e
……………..os engasgos trazem nuvens quentes pelos bicos
.
……………..As cores nublam suas malhas,
……………..a hora por pudor se castra e
……………..os dias já não são tão longos.
.
……………..O cristo vem pra ser
……………..um quadro cinza de
……………………mata
……………………pedra e
……………………turistas cinza.
.
……………..Os patos
……………..seu voo de pneu
……………..apagam o rastro que as asas abandona.
……………..E já não temos caçadores nem cães, e
……………..como eles, temos farejado bifes envenenados
.
.
.
……………..Com as dicas e a fúria dirigida,
……………..o verão prega roldanas e se puxa pelas pontas.
.
.
.
……………..Do ventilador virá a poeira e
……………..os dias não o alistarão.
……………..se tornará o fator vivo
……………..da invenção que há nas bandeiras
……………..elas se esticarão em chicotadas,
……………..como a bandeira falsa
……………………..da lua falsa
……………………..de um pouso antigo no Arizona.
.
……………..os feixes macerados
……………..nos vácuos do vapor
……………..alimentam para os crentes
……………..a luz divina em nichos isolados
.
……………..As lojas se acanham,
……………..o funk empalidece e
……………..as avenidas vão fermentar cerveja.
……………..Seus filhos testam a carga dos balcões
……………..vão os aposentando por invalidez
……………..O varal também testa sua energia e
……………..amontoa roupas esquecidas
……………..no que foram os parapeitos de um sonho.
.
……………..Com as dicas e a fúria dirigida,
……………..o verão não se culpa,
……………..prega roldanas e contrata elenco
……………..para que o puxem pelas pontas.
de Heyk Pimenta
