Que deve existir uma palavra ainda não dita, esquecida
Junto ao vocabulário de um povo perdido, extinto há muito,
Uma palavra de água tocando as telhas, virgem de sentido,
Intocada por séculos de fechada exaltação –
Palavra surda gritando sobre telhados, atravessada de silêncio,
Que penetrou a cegueira e atingiu qualquer lado:
Palavra interior, que colhia os seixos acesos da manhã.
Que essa palavra foi uma ponte ligando a invisibilidade à aurora,
Que respirava a origem e terminava no esquecimento,
Que o povo que a criou colhia rosas em silêncio,
Que este silêncio durava anos, até ser quebrado por esta palavra
Abraçando os quadris da memória.
Deve haver esta palavra que quando dita ao redor da fogueira
Aquecia mais que o fogo, ardendo mais que a lua transpirava a madeira.
Palavra cor que se debruça sobre a promessa de uma paisagem nova
Repleta de árvores em movimento – Palavra posta
À porta das casas, para proteção, dentro quem brinca com serpentes
Vez ou outra a recitava: tocava-a para a dança de tudo o que vive,
Que depois de dita a palavra era guardada em uma urna secreta,
Que as chaves ficavam com os ladrões, e quem dedilhasse os tons escuros
Do violino ganharia a palavra que deve ter existido.
Palavra os teus cabelos de ouro, sussurrada próxima de quem morria
Da palavra nos pulmões colados na luz.
Que deve existir esta palavra oculta na corola que desponta da distância
Cheia de medo, pois anuncia o meio de um coração ardendo – Palavra
De amor e de morte, dita ao centro do qual tudo parte para queimar sozinho.
Sinônimo de tudo o que é monumental, a palavra inteira,
Anagrama de Deus – Engolida no intenso mistério dos dicionários
A palavra perdida dos próprios usos: aberta, escutada, repleta de ouro,
Sonora como o sangue escoando das fendas do barro.
Que deve existir esta palavra provada no fogo, salgada no deserto,
Presa ao calcanhar dos santos peregrinos, recuando o amor até as fontes da sede.
A palavra que remanesceu, rescendendo à jasmin, cantando nos cântaros vazios
Jogados na casa – Onde quem brinca com serpentes a costurou na boca da cobra,
Que partiu envenenada para exigir todo corpo.
de Tadeu Sarmento
